A jogadora Andressinha cobrando uma falta, e ao lado a jogadora Marta.
Marta e Andressinha em jogo da Seleção Brasileira Feminina de Futebol / Reprodução

O Fala Feminina deste mês reúne mulheres que, além do gosto em comum pelo esporte, tiveram coragem para chegar aonde queriam, quebrando tabus em um universo ainda tão masculino.

O futebol de mulheres vive um dos seus melhores momentos no país. A organização, ainda que embrionária, dos campeonatos e dos times (em comparação com os masculinos), a visibilidade da Copa do Mundo, ocorrida em 2019, e a força da jogadora brasileira Marta que ostenta seis títulos de melhor do mundo, têm ampliado a discussão sobre a valorização da modalidade entre os brasileiros.

Nesta edição do Fala Feminina, conversamos com duas jogadoras da dupla GreNal, Lorena Silva e Fabi Simões, com a jogadora da Seleção Brasileira Andressinha e com a pesquisadora Silvana Goellner. E ainda relatamos a vivência da arquibancada por duas torcedoras e jornalistas da Fatto, Mariana da Rosa e Francine Malessa.

Fabi Simões, Silvana Goellner e Lorena Silva / Reprodução

“Nada foi concedido. Sempre é uma conquista”

Por quase seis décadas, as mulheres de diferentes partes do mundo foram impedidas de jogar futebol, principalmente em países que consideravam o esporte uma potência, como o Brasil.

Porém, o artigo 54 do decreto 3.199, de 1941, assinado por Getúlio Vargas, não foi o suficiente para impedi-las. A partir de então, surgiu a resistência das mulheres que persistiam no seu direito de jogar. A pesquisadora e curadora da exposição “Contra-Ataque: As mulheres do futebol”, Silvana Goellner, contextualiza a história da luta das mulheres. 

Exposição Contra-Ataque (Museu do Futebol – SP)
/ Francine Malessa

Para ela, o futebol é um espaço de empoderamento, visto que tiveram que lutar muito, desde o início. “Neste sentido, nada foi concedido, sempre é uma conquista que vem de uma luta muito grande. Não tenho dúvida de que o futebol empodera as mulheres, pois para estarem neste espaço, precisam de muita garra e desejo, pois é um espaço que não foi pensado para elas”.

Além do empoderamento, Silvana também considera o futebol um espaço de liberdade para as mulheres e foi da resistência frente à adversidades, que surgiu o Contra-Ataque.

Esta resistência teve reconhecimento em 2019: a Copa do Mundo das Mulheres foi transmitida em rede aberta pela primeira vez no Brasil, dobrando a audiência histórica do mundial, mas nem tudo ainda é vitória. Silvana afirma que a partir de agora é preciso continuar com a luta diária. “A visibilidade da Copa foi importante, vimos que as mulheres conquistaram espaços ainda não ocupados anteriormente. Porém, futebol de mulheres não é só Seleção ou Copa do Mundo, esta é apenas uma dimensão. Para a modalidade se estruturar no país, é preciso manter a luta constante e muita reclamação. Ainda são precárias as condições dos campeonatos, que muitas vezes não tem a estrutura que elas merecem”, finaliza a pesquisadora.

Em campo

A polarização entre as outras duas personagens desta matéria não se limita aos times que defendem. De um lado, lateral-direita das Gurias Coloradas, Fabi Simões, jogava futebol com a cabeça das bonecas e recebeu de sua mãe todo suporte necessário para vencer os obstáculos da sua trajetória. Do outro lado, a goleira das Gurias Gremistas, Lorena Silva, contou com o apoio inicial somente da sua avó, para ir em busca do seu sonho. No entanto, ambas possuem em sua carreira passagens pela Seleção Brasileira e o ideal da profissionalização do esporte como ponto principal para a valorização da modalidade. Em comum, o início jogando com meninos e precisando de esforço redobrado para chegar ao profissional.

Superação e reconhecimento

Natural de Salvador, Bahia, a lateral colorada Fabi Simões percorreu o mundo com a bola no pé, o mesmo pé que anteriormente jogava futebol com as cabeças das bonecas que ganhava de sua mãe. Porém, o talento não a segurou por muito tempo em casa. No início da adolescência, a garota entrou em uma escolinha de futebol, em uma equipe formada por garotos, pois não havia modalidade voltada às meninas.
Na visita de um olheiro, a desenvoltura de Fabi chamou atenção de um olheiro que a convidou para fazer um teste em Minas Gerais. Porém, a expectativa logo deu lugar à frustração, não havia teste algum. Ainda adolescente, a garota permaneceu em terras mineiras até a chegada de uma nova oportunidade.

A segunda chance veio do Rio de Janeiro, no Arturzinho. Depois de dar dois toques na bola, o técnico passou Fabi para o time titular e perguntou se ela teria como ficar, pois tinha uma carreira promissora. Embora ainda mantivesse uma postura cética, a jovem ficou na Cidade Maravilhosa até que veio a primeira convocação para a Seleção Brasileira. “Não acreditei muito, por tudo o que passei, mas sabia que se havia chegado ali, foi um propósito de Deus. Sempre tenho pra mim que quando vou aos lugares, eu nunca tenho que olhar para trás, que sempre preciso seguir em frente. Porém, quando cheguei na Granja pela primeira vez, eu treinei e pensei ‘eu vou voltar porque vou dar meu máximo ali dentro’”, conta a jogadora.

A partir da visibilidade com a amarelinha, a jogadora viu seu destino mudar. Saiu do Arturzinho e começou a receber para jogar – até então, ela pagava para poder praticar o esporte. Do Rio foi para Espanha, Suécia, Boston, China e Rússia, até retornar ao Brasil. Entre os clubes que defendeu, destacam-se Barcelona, Corinthians e Santos. Pela Seleção, também competiu no Mundial sub-20 e esteve nas recentes listas de convocadas.

Ao pensar no caminho percorrido, Fabi afirma que as meninas que ingressam hoje podem se inspirar nas mulheres que abriram os gramados para que elas chegassem até ali.

Contrariando até a família

Com 14 anos, Lorena Silva saiu de casa para iniciar a realização de um sonho: viver do futebol. Com 1,83m de altura, a goleira partiu de Ituverava, interior de São Paulo, para a capital paulista. Dentro de casa, a família não apoiava a decisão de jogar futebol como profissão. Apenas a avó, Vera, incentivava na época. Na cidade com mais de 10 milhões de habitantes, morou com uma família desconhecida. Lândia e Joca receberam a menina como uma filha de coração, enquanto ela jogava no time feminino do Centro Olímpico.

– Minha família não me apoiou no começo e quem foi minha principal incentivadora foi a minha avó, que disse para eu sair de casa para jogar e buscar meu sonho. Comecei jogando futebol na rua com uns amigos. Meu primeiro time foi o Bangu, jogando com meninas muito mais velhas que eu, e morando em alojamento do clube. Era a mais nova do elenco. Em 2012, então com 15 anos, fui para o Centro Olímpico. Como não tinha alojamento, fui morar na casa da Lândia e do Joca. Eles foram uma benção de Deus na minha vida. Se eles não abrissem a porta da casa deles, eu poderia não estar mais jogando. Depois fui jogar no Sport, de Recife – relata.

Hoje, com 22 anos, Lorena é a goleira titular do time feminino do Grêmio. Depois de percalços de mudanças de clubes – saindo do calor de Pernambuco e chegando ao frio do Rio Grande do Sul – ela afirma que já se sente realizada pela carreira profissional, com carteira assinada e conseguindo viver apenas do futebol, sem precisar trabalhar em outros setores para se manter.

– Cheguei no Grêmio em março deste ano. Eu tinha renovado contrato com o Sport Club do Recife até final da temporada de 2019, mas o clube passa por momentos financeiros muito ruins. Com isso, eles desmontaram o elenco profissional e fizeram um time de jogadoras da região. Com o desmanche do elenco profissional, vim como empréstimo aqui para o Grêmio – explica.

Lorena tem a carteira assinada desde 2017 como jogadora de futebol profissional. A goleira acredita que esse passo é fundamental para a consolidação da carreira feminina no esporte, ainda que as estruturas ainda estejam aquém do futebol masculino na maioria dos clubes.

– O futebol feminino vem crescendo muito e a maioria dos clubes já trabalham assinando a carteira de trabalho e fazendo um contrato profissional com as meninas. Aqui no Grêmio, temos uma boa estrutura de trabalho e treinamentos, mas sabemos de colegas de profissão que não chegam a treinar todos os dias ou treinam poucas vezes por semana. É uma segurança ter carteira assinada, de saber que estamos trabalhando igual a uma pessoa comum, e de olhar para trás e ver o quanto a modalidade está crescendo – avalia.

O aumento do interesse no futebol feminino faz da goleira uma figura conhecida na sua cidade natal.

– Na minha cidade, quando estou de férias, sou parada nas ruas por pessoas que sabem da minha trajetória. Nas redes sociais também recebo muitas mensagens de carinho e incentivo. É muito gratificante perceber o interesse dos pequenininhos em ver o futebol feminino – afirma.

Para o futuro, seguir crescendo e conquistando títulos dentro de fora do campo.

– Me vejo crescendo ainda mais e conquistando meus objetivos. Sonho ainda em jogar fora do país, onde o futebol feminino é mais valorizado, e jogar novamente na Seleção principal. Vejo um futuro promissor para a modalidade, pois está crescendo a cada dia – finaliza.

Passagens pela Seleção Brasileira

Em 2013, a Lorena teve a primeira convocação para a Seleção sub-17. Em 2015, foi a vez da primeira convocação para a Seleção sub-20. Campeã sul americana da categoria, em 2016 foi convocada novamente para a disputa do Mundial sub-20 na Papua nova Guiné. Em 2017, a goleira teve a primeira convocação para a Seleção Principal.

Começo invertido para a gaúcha de Roque Gonzales

A cidade de 7 mil habitantes e distante 547 Km de Porto Alegre revelou uma das jogadoras de futebol mais promissoras da Seleção Brasileira atual. Andressinha hoje mora nos Estados Unidos e joga pelo Portland Thorns FC, mas teve um começo de carreira inusitado em Roque Gonzales, município no noroeste do Rio Grande do Sul.

– Comecei como a maioria das meninas: jogando com meninos na minha cidade. Joguei campeonatos de várzea e meu pai sempre me apoiou. Ele montou um time para que eu jogasse e me levava para todo canto em torneios. Meu pai soube de uma peneira para a Seleção de base e me levou. Passei e fui para a Seleção pela primeira vez, mas eu não tinha nenhum clube e comecei jogando direto com a Seleção – lembra.

Depois de jogar no sub-17 da Seleção e chamar atenção de alguns clubes brasileiros, Andressinha foi jogar no Kindermann, reconhecido como um dos clubes de futebol feminino mais organizados do país. Jogando lá, ela conquistou as primeiras convocações para a Seleção principal. Jogou cinco anos no Kindermann e depois foi para o Houston, nos Estados Unidos, antes de chegar ao Portland Thorns.

– A estrutura do Kindermann é muito boa, comparando com os outros clubes do Brasil. Porém, não podemos comparar com o que temos nos Estados Unidos. Aqui estão muito na frente e o futebol feminino é cultural. No Brasil, o futebol sempre foi reconhecido por ser masculino e as mulheres chegaram a ser proibidas de jogar. Aqui nós dominamos realmente. Vemos mulheres jogando futebol nas ruas, nas universidades, nas escolas e é super natural – relata.

Andressinha destaca que a média de público é de 20 mil torcedores nos jogos do Portland Thorns, mostrando o quanto o esporte é forte com os torcedores norte-americanos.

– A Liga é superorganizada e usamos as mesmas estruturas dos times masculinos. As meninas começam a jogar em torneios pequenas, com 11, 12 anos e aprendem desde novinhas como se preparar para esses campeonatos – afirma.

Sobre o aumento da visibilidade com a transmissão da Copa do Mundo de 2019 para todo país, Andressinha lembra que foi um marco para as jogadoras da Seleção, que passaram a receber uma atenção maior da mídia brasileira.

– Foi um absurdo o tanto de pessoas que nos acompanharam na Copa do Mundo. Nos surpreendemos com a visibilidade que recebemos. É muito importante para disseminar o futebol feminino. Muitos começaram a criar interesse e sabemos que a Copa apresenta para os torcedores o futebol com mais alto nível possível. Os jogos são atrativos e mostrou que existe potencial inclusive dos torcedores em assistir – explica.

Para os próximos anos na Seleção Brasileira, Andressinha relata que a chegada da técnica sueca Pia Sundhage ao comando técnico deverá trazer ainda mais competitividade para as brasileiras.

– Ela é uma das mais respeitadas técnicas do mundo e já foi eleita como melhor técnica pela Fifa. Só tem coisas boas a acrescentar na Seleção. Na questão técnica das jogadoras, acredito que já estamos em alto nível e temos boas peças. Ela acrescenta na organização e na questão tática. Além disso, traz uma bagagem de frieza, que precisamos melhorar. Temos o sangue brasileiro que é emotivo e vemos outros países com jogadoras mais frias em momentos do jogo que não conseguimos – finaliza.

Nas arquibancadas

As jornalistas, Mariana da Rosa e Francine Malessa, da Fatto, são torcedoras apaixonadas da dupla GreNal. Mari, do lado tricolor, e Fran, do lado colorado, também compartilham da sua experiência enquanto mulheres que amam e vivem o futebol.

Futebol que vem de berço, por Mariana da Rosa

A imagem ao lado resume a minha infância:

É preciso achar graça dessa imagem, antes de sair brigando. E também lembrar de todos os processos que passei desde pequena, fazendo com que essa imagem deixasse de ser triste e me fizesse rir. É isso que vou contar um pouco aqui 🙂

Cresci numa família apaixonada por futebol. Filha única, herdei de pai e mãe o amor pelo esporte mais maravilhoso do mundo (desculpa aí, não quero polemizar). Ela colorada e ele gremista. Além de gostar e assistir, aprendi com eles sobre respeito ao outro, enxergar o futebol com mais empatia e menos rivalidade. Passaram por todos os momentos bons e ruins dos dois clubes nos últimos 35 anos e eu nunca – nunca mesmo – os vi brigando por futebol.

Dentro de casa, rádio e TV sempre souberam os horários de futebol. De todas as séries. De todos os países. Praticamente todos os dias. Fora de casa, era um comentário pior que o outro.

Enquanto isso, meu pai me levava ao Olímpico Monumental para conhecer meus ídolos. Escolhi o tricolor desde pequena. Paulo Nunes, Danrlei, Jardel. 

Era fácil citar meus jogadores favoritos. Difícil mesmo era a sensação de ficar de fora dos grupinhos de meninos na escola. Na época, era bem raro arrumar amizade com meninas que também fossem fãs de futebol.

Com o passar do tempo, fiquei conhecida na escola como a “menina que gosta de futebol”. Isso me dava um orgulho danado, apesar de toda conotação preconceituosa. Os pais das minhas amigas me adoravam, pois eu conversava sobre Grêmio/Inter com todos, brincava nas vitórias/derrotas. Um deles me manda mensagem até hoje quando o Grêmio perde um clássico.

Depois de quinze anos longe das quadras, voltei a jogar futebol. Gostei tanto da retomada ao campo que entrei em dois times femininos distintos. E uma das maiores alegrias é quando meu sobrinho Gabriel, de sete anos, pergunta se a Marta é a camisa 10 do meu time. Isso é representativo demais. É um delicioso avanço ver uma mulher ser lembrada por uma criança quando o assunto é futebol. Eu ainda não tinha visto isso, mas tô pronta pra curtir e incentivar cada vez mais essas pequenas felicidades.

Sobre o hobby de ir aos jogos na Arena do Grêmio sozinha, algumas vezes percebo olhares tortos e recebo perguntas curiosas. Mas também já percebi que as coisas estão mudando. O lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive no estádio olhando futebol, jogando futebol ou apenas falando sobre futebol.

Da arquibancada eu não arredo o pé, por Francine Malessa

Comecei a frequentar estádio apenas em 2014, aos 23 anos. Além de morar longe de Porto Alegre, passei a vida toda sendo alimentada pelo imaginário de que mulher não frequentava esse tipo de espaço e, muito menos, que poderia ir sozinha. Então, conheci a Força Feminina Colorada (FFC), a primeira torcida organizada exclusivamente de mulheres do Rio de Grande do Sul e me tornei assídua nas partidas do Beira-Rio.

O futebol está presente na minha vida desde muito nova – incentivada a jogar pelo meu padrinho, assistindo jogos com os amigos ou participando das rodinhas de conversa com os colegas sobre a rodada do final de semana – mas, ainda não tinha passado por qualquer tipo de preconceito. Lembro que quando morei em Minas Gerais, eu era a única menina entre os colegas da faculdade que discutia FUTEBOL.

Era um belo fim de tarde no Gigante da Beira-Rio, ainda em 2014, o Inter estava encaminhando a classificação para a Libertadores da América, portanto, era dia de casa cheia. Eu estava sentada, ajudando a guardar alguns lugares para outras meninas da torcida quando um senhor questionou o que era aquele espaço.

– É da Força Feminina Colorada.
– Força Feminina Colorada? O que é isso?
– É uma torcida organizada só de mulheres.
– Pff (algum som que significava desdenho)
– Pff o quê?
– Chegaram ontem no estádio e querem ter lugar?

Esse diálogo foi tão surpreendente e tão agressivo ao mesmo tempo que fiquei sem reação. Enquanto o senhor se afastava eu respondi “Sim, nós temos o mesmo direito de estar aqui!”.

O choque e o preconceito me fizeram perceber outra realidade que estava longe dos privilégios que tive ao longo da vida. Este ano, completei cinco anos como integrante da FFC e, com o passar do tempo, fui me apropriando cada vez mais da importância de representatividade e do empoderamento das mulheres neste ambiente masculino. O machismo continua se manifestando de outras formas. Ainda sou confrontada, ainda não respeitam meu espaço e o meu direito de torcer, mas da arquibancada eu não arredo o pé, pois o meu lugar é onde eu quiser.

Nas arquibancadas

As jornalistas, Mariana da Rosa e Francine Malessa, da Fatto, são torcedoras apaixonadas da dupla GreNal. Mari, do lado tricolor, e Fran, do lado colorado, também compartilham da sua experiência enquanto mulheres que amam e vivem o futebol.

Futebol que vem de berço, por Mariana da Rosa

A imagem ao lado resume a minha infância:

É preciso achar graça dessa imagem, antes de sair brigando. E também lembrar de todos os processos que passei desde pequena, fazendo com que essa imagem deixasse de ser triste e me fizesse rir. É isso que vou contar um pouco aqui 🙂

Cresci numa família apaixonada por futebol. Filha única, herdei de pai e mãe o amor pelo esporte mais maravilhoso do mundo (desculpa aí, não quero polemizar). Ela colorada e ele gremista. Além de gostar e assistir, aprendi com eles sobre respeito ao outro, enxergar o futebol com mais empatia e menos rivalidade. Passaram por todos os momentos bons e ruins dos dois clubes nos últimos 35 anos e eu nunca – nunca mesmo – os vi brigando por futebol.

Dentro de casa, rádio e TV sempre souberam os horários de futebol. De todas as séries. De todos os países. Praticamente todos os dias. Fora de casa, era um comentário pior que o outro.

Enquanto isso, meu pai me levava ao Olímpico Monumental para conhecer meus ídolos. Escolhi o tricolor desde pequena. Paulo Nunes, Danrlei, Jardel. 

Era fácil citar meus jogadores favoritos. Difícil mesmo era a sensação de ficar de fora dos grupinhos de meninos na escola. Na época, era bem raro arrumar amizade com meninas que também fossem fãs de futebol.

Com o passar do tempo, fiquei conhecida na escola como a “menina que gosta de futebol”. Isso me dava um orgulho danado, apesar de toda conotação preconceituosa. Os pais das minhas amigas me adoravam, pois eu conversava sobre Grêmio/Inter com todos, brincava nas vitórias/derrotas. Um deles me manda mensagem até hoje quando o Grêmio perde um clássico.

Depois de quinze anos longe das quadras, voltei a jogar futebol. Gostei tanto da retomada ao campo que entrei em dois times femininos distintos. E uma das maiores alegrias é quando meu sobrinho Gabriel, de sete anos, pergunta se a Marta é a camisa 10 do meu time. Isso é representativo demais. É um delicioso avanço ver uma mulher ser lembrada por uma criança quando o assunto é futebol. Eu ainda não tinha visto isso, mas tô pronta pra curtir e incentivar cada vez mais essas pequenas felicidades.

Sobre o hobby de ir aos jogos na Arena do Grêmio sozinha, algumas vezes percebo olhares tortos e recebo perguntas curiosas. Mas também já percebi que as coisas estão mudando. O lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive no estádio olhando futebol, jogando futebol ou apenas falando sobre futebol.

Da arquibancada eu não arredo o pé, por Francine Malessa

Comecei a frequentar estádio apenas em 2014, aos 23 anos. Além de morar longe de Porto Alegre, passei a vida toda sendo alimentada pelo imaginário de que mulher não frequentava esse tipo de espaço e, muito menos, que poderia ir sozinha. Então, conheci a Força Feminina Colorada (FFC), a primeira torcida organizada exclusivamente de mulheres do Rio de Grande do Sul e me tornei assídua nas partidas do Beira-Rio.

O futebol está presente na minha vida desde muito nova – incentivada a jogar pelo meu padrinho, assistindo jogos com os amigos ou participando das rodinhas de conversa com os colegas sobre a rodada do final de semana – mas, ainda não tinha passado por qualquer tipo de preconceito. Lembro que quando morei em Minas Gerais, eu era a única menina entre os colegas da faculdade que discutia FUTEBOL.

Era um belo fim de tarde no Gigante da Beira-Rio, ainda em 2014, o Inter estava encaminhando a classificação para a Libertadores da América, portanto, era dia de casa cheia. Eu estava sentada, ajudando a guardar alguns lugares para outras meninas da torcida quando um senhor questionou o que era aquele espaço.

– É da Força Feminina Colorada.
– Força Feminina Colorada? O que é isso?
– É uma torcida organizada só de mulheres.
– Pff (algum som que significava desdenho)
– Pff o quê?
– Chegaram ontem no estádio e querem ter lugar?

Esse diálogo foi tão surpreendente e tão agressivo ao mesmo tempo que fiquei sem reação. Enquanto o senhor se afastava eu respondi “Sim, nós temos o mesmo direito de estar aqui!”.

O choque e o preconceito me fizeram perceber outra realidade que estava longe dos privilégios que tive ao longo da vida. Este ano, completei cinco anos como integrante da FFC e, com o passar do tempo, fui me apropriando cada vez mais da importância de representatividade e do empoderamento das mulheres neste ambiente masculino. O machismo continua se manifestando de outras formas. Ainda sou confrontada, ainda não respeitam meu espaço e o meu direito de torcer, mas da arquibancada eu não arredo o pé, pois o meu lugar é onde eu quiser.