Essa cena parece incomum pra você? Eu vejo Netflix com iPad e Iphone sempre por perto, buscando informações sobre o diretor do filme, o perfil dos atores e comentários de outros espectadores. Ao mesmo tempo, respondo e envio mensagens de WhatsApp para amigos, clientes, familiares. Deleto emails desimportantes e guardo outros para ler depois. Não suporto caixa de entrada cheia.

Simultaneamente dou garfadas no prato, tudo no sofá.

Sou hiperconectada. Estou ligada em todos os volts e penso que sou feliz. Acordo, leio vários jornais no Ipad e continuo respondendo mensagens e emails. E, pasmem, sou respondida just in time.

Hiperconectada sou a generala da minha vida. Eu e umas 150 pessoas que conheço. Embarcamos bonito na vida conectiva, na ansiedade de saber até onde vai esse simulacro abastecido pela inteligência artificial. Onde mais ele aferatá as nossas vidas?

Para as mulheres, a coisa é ainda mais hiperbólica: amamentamos com o celular na mão. Nos equilibramos no salto entre as gôndolas do supermercado atrás daquela marca de fraldas descartáveis biodegradáveis, do cardamomo que é afrodisíaco e a gente viu num stories, e sei lá mais o que que fará da nossa vida um grande paraíso. E onde está mesmo aquela barrinha que não tem açúcar e que eu vi no Instagram? A batata doce e o frango, já peguei? O que mais é que se come hoje em dia?

Enquanto eu escrevo este texto, são 7h30 da manhã e eu coloquei o relógio para despertar exatamente nesse horário. Mas já estou aqui dedilhando e acordada desde as 5h.

Durmo pouco. Acordo muito cedo. Quando Whats não era moda eu escrevia emails na madrugada e mandava para os clientes, que riam: “escuta, tu não dormes”? E, então, para não parecer tão fissurada em trabalho, eu escrevia os emails nas primeiras horas da manhã (eufemismo para madrugada, jornalista não pode repetir palavras no mesmo parágrafo) e enviava somente às 8h. Ufa, sou normal.

Só que agora TODOS respondem no minuto após eu dar um send! Opa! Não estou só. Todos estão comigo, conectados!!

Menos os filhos, claro. No celular deles está escrito “coroa’ e “véia”, dá pra aguentar? Sim, e eles são muito menos conectados do que eu. Um deles, inclusive, quase me fez chamar a policia porque ficou 3 dias sem responder Whats, nem ligação. Isso é coisa que se faça com uma mãe hiperconectada? Não, né.

Mas o que efetivamente a hiperconexão nos traz, além de uma virtualidade controlada? Sim, porque a realidade nos escapa enquanto lemos cada notificação em vermelho ali piscando.

Então. Só quero dizer que atualmente estou lendo só livros que falam sobre “a essencial arte de parar”. Leio, releio, anoto. E sigo a saga.

Terei que nascer de novo? Monja budista ou uma lama tibetana? Ou uma freira carmelita, enclausurada em seu silêncio? Aceito sugestões por email, Whats, Face, Insta, Messenger, Linkedin. O que chegar primeiro.

Prometo responder entre 4h e 8 da manhã. Depois vou trabalhar!