A reinvenção de Doris Spohr e Rute Milman

Fala Feminina Evani Wolf

As primeiras respostas do extenso questionário enviado à Doris Spohr e à Rute Milman para compor esse perfil chegaram via WhatsApp. Ambas não hesitaram em utilizar a tecnologia para adiantar trechos de suas histórias. Doris aos 80 anos e Rute aos 73 não são mulheres de perder tempo e tampouco de parar no tempo.

O encontro presencial se deu dias depois. Foi daquelas conversas em que a gente ouve mais do que fala para não perder nenhum detalhe. E não é para menos. Duas mulheres tão múltiplas e profundas sabem naturalmente como conduzir um bom papo, dando o tom de intimidade na medida.

Elas haviam se visto algumas vezes em eventos da capital gaúcha, mas nunca em um encontro direto. Com a cordialidade de quem admira a outra à distância, dividiram a mesa para compartilhar suas memórias.

Rute foi a primeira a chegar. Vestindo calça e blusa preta e uma pequena bolsa a tiracolo, entrou na sala com toda a simpatia que lhe é peculiar. “Bom dia, garotas!”, disse de pronto. Ela é uma mulher mignon, com o humor inteligente de quem sabe o tempo certo da piada. O estilo descolado se torna ímpar combinado a uma dose grandiosa de gentileza e de delicadeza com os demais. Uma dama contemporânea. Mãe de três filhos, Fábio, Tulio e Caroline, a esposa do Gildo há mais de 50 anos sabe a que veio.

Minutos depois, Doris tocou a campainha. Com a elegância de quem respira moda há mais de seis décadas, chegou para complementar a conversa. Saia e blusa pretas milimetricamente ajustadas ao corpo esguio, meias finas da mesma cor e um casaco caramelo de corte arrojado, sentou-se à mesa com sorriso ainda tímido, que logo se transformou em gargalhada.

Começaram e conversar e descobrir pontos convergentes entre sua décadas de vida. Rute contou que a mãe  Lilly, vinda da Alemanha para Porto Alegre, era chapeleira. Fazia as peças para uma marca tradicional da cidade. Doris, evidentemente, lembrou dos donos da grife e por aí foram se encontrando. Menos de dez anos separam o nascimento das duas, que contam que tiveram aulas de economia doméstica na escola – Doris no Colégio Farroupilha e Rute no Instituto de Educação. Aprender a cozinhar, cuidar da casa e de uma criança estava prescrito na cartilha. Doris a tem até hoje. Organizada, conta que costuma guardar “coisas importantes”, como os primeiros croquis desenhados por Rui, estilista renomado com quem divide a vida desde os 18 anos.

Dessa organização e atenção aos detalhes, nasceu o acervo que compõe o Instituto Rui. Projeto que atualmente busca recursos para integrar exposições Brasil afora.

Rute revela ser mais “desapegada”. Guarda as coisas até ter o que chama de “cinco minutos”. Tempo que leva para colocar tudo fora. Seus guardados se restringem a obras de arte, grande paixão desde os tempos de moça.

Nesse vaivém de recordações, maridos e filhos surgem a todo momento. Doris e Rui Spohr tiveram apenas uma filha, Maria Paula, que cresceu entre alfinetes, fitas métricas e tecidos. Doris conta que Rui fazia as roupas da pequena e que não havia lugar por onde a menina passasse  sem ser percebida. “Ela ficava tão incomodada com as pessoas olhando seus vestidos que logo aprendeu a dizer “bodado não”!, lembra ela, contanto que a filha viveu tão intensamente essa rotina de corte e costura dos pais que hoje não “liga” para moda. A única neta, Antônia, já aprecia um pouco mais.

Rute é uma mãe que deixa os filhos irem. Conta que os educou com liberdade, mas deixando claro que sempre estaria a postos para os auxiliar. É superorgulhosa do seu trio e dos sete netos. No fim do ano, embarca para a Suíça para visitar uma das netas.

A liberdade dos 50

Quando a pergunta é aquela velha questão sobre “como é envelhecer”, ambas dão de ombros, dizem que a vida segue, com adaptações às limitações de mobilidade que surgem. “Uma dor aqui outra ali e segue o baile”, divertem-se. E quando questionadas sobre querer voltar no tempo, concordam que os 50 anos são gloriosos. “Ainda estamos com um corpo bacana e ganhamos a liberdade de ser quem somos, deixando para trás preocupações sobre o que pensam a nosso respeito”, pondera Doris.

Rute revela que sempre foi uma pessoa “tanto faz”. “Me perguntavam o que eu preferia e eu dizia tanto faz. Minha grande transformação começou a acontecer quando disse pela primeira vez: Não sei o que quero, mas sei o que eu não quero”. A partir daí, diz, deixou as amarras e passou e se posicionar sobre suas vontades.

Reinvenção

O ano de 2018 começou cheio de desafios para ambas. Após 60 anos vestindo centenas de mulheres de todos os cantos do País, Doris e Rui decidiram fechar o ateliê. A partir daí, a mãe de Maria Paula passou a se dedicar para um novo plano, um canal no YouTube chamado Simplesmente Doris, onde apresenta vídeos curtos com dicas sobre assuntos variados.

Rute também está envolvida em um novo projeto. Após atuar por mais de 30 anos no ramo de seguros, traz para a capital gaúcha a modalidade de seguro de obras de arte. Algo que até hoje não existia no Rio Grande do Sul, mesmo havendo um número expressivo de colecionadores no Estado.

Dedicação e empenho não faltam nos novos caminhos dessas duas mulheres fortes e admiráveis. Ainda ouviremos falar muito delas.

2018-11-14T14:41:47+00:00 13/08/2018|Fala Feminina|