Uma mulher SEM FRONTEIRAS

A vida de quem enxerga a humanidade inteira como sua família

Arquivos pessoais de uma missão em Guiné (2009)

Débora Noal atua como psicóloga sanitarista há mais de 10 anos na organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras. Muitas vezes a única mulher a se envolver em determinadas missões. Nas suas atuações já auxiliou contextos de saúde pública e ajuda humanitária em 8 países e um pouco mais de 15 projetos na Ásia, principalmente na Ásia Central, na África Subsaariana, África do Norte, e na América. As pesadas situações que presencia vão de guerras, conflitos armados, deslocamentos forçados, violência sexual, epidemia de ebola, a desastres de grandes proporções como: terremotos e deslizamentos de terra em diferentes países como a Tunísia, Líbia, Quirguistão, Guiné, Sudão do Sul, República Democrática do Congo e República Dominicana, Brasil, entre outros.

Em sua infância, Débora nunca imaginou que teria um trabalho tão próximo ao que exercita hoje. Era uma gaúcha de Santa Maria com um mundo todo a conhecer. Naquela época não sentia que sua vida teria uma grande reviravolta, e que o curso que recém iniciava na faculdade UNISC, do interior do Rio Grande do Sul, pudesse chegar a tão longínquos quilômetros. Entre os próprios colegas conta que via um engajamento social muito forte, com outras estratégias e visões de como o mundo poderia ser vivido.

A “escolha por escolher”, como ela mesma conta, a tornou uma pessoa com o poder de encarar o cotidiano de outra forma. A simplicidade de dar valor a pequenas mordomias que nos passam despercebido, como um banho quente, ou o prazer de dormir em uma cama. A valorização pela sua vida mudou, e a fez uma pessoa mais grata pelo poder de acordar pela manhã sem medo. O medo que desejava que todos pudessem evitar se tivessem sua dignidade humana garantida.

A psicóloga encarou uma vida de desafios e já passou por diversas situações que a colocaram em confronto com essa decisão. “Lembro que quando eu cheguei em 2009 para trabalhar em um conflito armado na República Democrática do Congo e eu era a única mulher branca trabalhando nessa situação em uma equipe  de 14 homens” relata.

Em uma missão onde as principais vítimas eram sexualmente violentadas por até 30 homens, sua situação como a única mulher de uma equipe se tornou perigosa quando a base do Médicos  Sem Fronteiras foi ameaçada.

Momentos de documentação no Haiti

“Eu sabia que se os homens entrassem na nossa base, eu seria violentada tal qual as mulheres que eu atendia. Nessa noite eu dormi de calça, com os documentos nos bolsos, e a minha mochila do lado. Eu praticamente não dormi a noite inteira, esperando o momento do ataque”.

Essa foi apenas a primeira de várias situações similares, mas sabe que toda missão é um desafio, com diferentes barreiras para se superar e permanecer tentando fazer seu trabalho em trazer ajuda aos que, muitas vezes, não enxergam uma saída.

Em seu histórico de atuações, lembra de alguns momentos especiais, como quando teve que tratar pacientes diagnosticados com ebola, usando 11 itens sobre o seu corpo – máscara, touca, luvas, dois propés, uma bota, um avental cirúrgico, uma roupa de plástico – e ainda criar uma conexão de proximidade e confiança com aquelas que nunca tinham visto uma mulher branca antes. Ou ainda, quando moças violentadas, principalmente na África Subsaariana pediram para que interviesse com os seus maridos, com os seus companheiros, ou com as suas famílias, porque nesses locais, principalmente na República Democrática do Congo, quando uma mulher é violentada ela não tem o direito de manter a guarda de seus filhos. “Realmente foi uma sensação muito, muito boa, de uma intervenção cultural, um atravessamento, mas que ajudou a manter a dignidade de muitas mulheres.”

Arquivo pessoal de Débora com parte da comunidade que atendia em Guiné

São diversas as histórias, experiências de vida que enchem os olhos e o coração. Essa enorme bagagem narrada em seus diversos diários de viagens, aos poucos, vão tomando vida nas linhas de seu novo livro “O Humano no Mundo: diário de uma psicóloga sem fronteiras”. Lá, podemos conferir algumas de suas missões que, conforme ela, já foram vividas e sofridas, desse modo podendo povoar o mundo de uma outra forma. O medo, segundo ela, sempre existe “não tem como vc chegar em uma missão dessa e não sentir medo. Ele é presente.” Mas explica que o sentimento age como um escudo protetor que evita você de se arriscar em situações que estão além de seu controle ou alcance.

Nessas situações ele é amigo, companheiro e o melhor zelador. Débora confessa: “o diário era de fato um grande companheiro, era como se fosse o meu mundo interno, só o que passava pela minha cabeça mas eu não conseguia passar para outras pessoas”. Ela conta que não pretendia que se tornasse um livro, nem almeja publicar outros. Mas, de acordo com a psicóloga, tudo tem seu tempo de cura e cicatrização. Está na hora do mundo viver o humano em todas as culturas.

Arquivo pessoal no Haiti em primeira missão da ONG Médico sem Fronteiras

Se você se sentiu tocado com os relatos do livro, de sua vida, qualificado em ajudar, e acha que pode mudar o mundo de outro ser humano, vá em frente. Sempre tem alguém que precisa e só aguarda por você. “Então vem!” exclama. E se for mulher, que se concentre em usar de sua estrutura genética para melhorar o mundo de uma forma que outros talvez não consigam. Com muito amor e ternura.

2018-11-14T14:46:42+00:00 09/05/2018|Fala Feminina|