A mulher que guarda prêmios na gaveta

Silvia Brandalise, médica fundadora do maior hospital especializado em câncer pediátrico da América Latina, tem o sonho de alcançar 100% de cura da doença em crianças, mas não se vangloria pelas conquistas obtidas na carreira.

Fala Feminina Silvia Brandalise

“Não ponho diploma de formatura em lugar nenhum, não ponho mais medalha em lugar nenhum. Ganho prêmio e enfio na gaveta”.

A equipe da Fatto Comunicação se encantou por essa mulher durante o desenvolvimento da parceria entre Tramontina e o hospital filantrópico criado por Silvia, o Centro Infantil Boldrini. A nova T store, localizada em Campinas, vai reverter o valor de um dia inteiro de vendas em doações para o centro de tratamento pediátrico. Impossível não se contagiar pela força dessa mulher e dessa instituição de luz!

Clovis Tramontina e Silvia Brandalise

Há quem confunda Dra. Sílvia com a ex-presidente Dilma Rousseff, mas bastam poucos minutos ao lado da doutora para perceber seu jeito inconfundível. Mulher que enxerga os sonhos concretizados, Silvia Brandalise não tem tempo para lamentações. O ritmo da fala é doce, mas a atitude da doutora é de embate, é visceral, para usar palavras dela. O coração de Silvia não espera, e a mente trabalha bastante para colocar em prática o amor pela comunidade em que vive, o amor pela medicina.

Inevitável dizer que a vocação para o serviço público tem um lado cruel – o sacrifício da presença no ambiente familiar. Criar quatro filhos enquanto desenvolvia métodos de tratamento para a oncologia pediátrica foi ter que escolher, diversas vezes, entre ir à apresentação da escola ou socorrer uma criança em fase terminal. Foi receber desenhos dos filhos em que a família era desenhada da seguinte forma: o pai e os filhos de mãos dadas e Silvia, a mãe, estava lá no alto, longe, na janela de um avião.

O percurso antes da fundação do hospital filantrópico que coordena há 40 anos teve outros episódios duros. A pediatra começou a atender crianças com apenas uma maca, uma mesa e acessórios básicos. Nesse período ela desenvolveu também a habilidade de pedir doações e de compartilhar o que tinha em mãos. Dra. Silvia afirma, inclusive, que “o rico é rico porque não divide”. Conseguia um cobertor dali, uma vacina daqui e acolhia pacientes na própria casa, até que, em 1986, com o apoio do Clube Lady e do Instituto Bosch, nasceu o Centro Infantil Boldrini. Hoje o hospital conta com 80 leitos, chalés para receber os familiares que acompanham pacientes e órgãos dedicados à pesquisa na área de oncologia e hematologia pediátrica.

Esse pragmatismo de Silvia foi herdado dos pais, a quem ela credita a educação voltada para a excelência, para entregar sempre o melhor. Com o apoio familiar que teve, a doutora entendeu que o sucesso na profissão não foi alcançado somente por mérito. Ela acredita que o fato de não ter que se preocupar em ajudar os pais no sustento da casa e de ter paz para estudar a colocou em posição privilegiada para construir ideais e trabalhar por eles. Talvez resida aí o fato de Silvia não ostentar os mais de 80 prêmios e homenagens recebidas ao longo da carreira.

Ainda menina, quando adolescentes se encantavam por Elvis Presley e James Dean, Silvia ficou encantada por Albert Schweitzer, médico alemão ganhador do Prêmio Nobel da Paz. A partir de uma notícia de jornal, que leu aos 13 anos, Silvia identificou-se com a missão de Dr. Albert, que foi ao Gabão, na África, para tratar crianças, e enviou a ele uma carta cheia de admiração. Esse episódio foi um marco na construção do ideal da fundadora do Centro Boldrini, o de trabalhar pelas crianças do Brasil.

O que se desenrolou a partir daí foi um caminho retilíneo: Silvia foi criada em família de classe média, na capital de São Paulo. Cursou aulas de piano, idiomas, formou-se em escola pública. Foi aprovada no vestibular de medicina na UNIFESP, onde também fez residência médica, em Pediatria. Na faculdade, conheceu o cirurgião Nelson Brandalise, com quem se casou. O casamento acabou levando Dra. Silvia e Dr. Nelson para Campinas, em 1969, mudança que significou oportunidade de explorar o novo e criar recursos onde faltava.

A parte fantástica da história começa quando Dra. Sílvia inicia de fato seus trabalhos na Unicamp, universidade em que fez o doutorado, lecionou por muitos anos e também instituição que bancou muitas das iniciativas de Silvia Brandalise, doando infraestrutura para órgãos de pesquisa e contribuindo para a produção científica dentro do Centro Boldrini. A médica liderou o setor de pediatria do Hospital da universidade, função que a colocou em contato com crianças em tratamento de câncer. Os pequenos pacientes pediam à doutora que os salvasse: muitas vezes chorando, diziam à médica que queriam viver mais. Apesar do jeito objetivo, quase sem paciência para reclamações, ela tem um ponto fraco. “Meu tendão de aquiles é o choro, não consigo ver gente chorando”. Os pedidos motivaram a criação da ala de hematologia do Hospital, que foi o embrião do Centro Boldrini. Dra. Sílvia largou a direção da enfermaria de pediatria para se dedicar exclusivamente ao tratamento do câncer infantil.

Da fundação do Boldrini até hoje, a chance de cura do câncer infantil no Brasil subiu de 5% para 80%. O salto desse índice, em trinta anos, tem tudo a ver com a história da doutora Silvia Brandalise, pediatra que fez da luta contra a doença o seu propósito. Não à toa a evolução no tratamento pediátrico do câncer e de outras doenças do sangue coincide com o tempo de fundação do Centro Boldrini, instituição que se tornou referência mundial no cuidado humanizado e na produção científica em medicina infantil.

Hoje, aos 74 anos, com toda uma vida dedicada ao mesmo trabalho, com oito netos, ela nem sonha com a aposentadoria. Desconhece a palavra férias e diz que os familiares a perdoam por sua ausência. Incansável, ainda quer chegar ao índice de 100% de cura da leucemia e angariar recursos para a construção de um hospital pediátrico completo para a cidade de Campinas. “Na vida, eu deixo o coração no presente e ponho a cabeça lá no futuro. Lá no futuro, para pensar em novas ideias e estratégias que atenuem o sofrimento do maior número de crianças possível”. Dra. Silvia deveria ser a presidente do Brasil.

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2018-01-23T11:45:23+00:00 22/01/2018|Fala Feminina|