A gaúcha que
trança palavras

Fala Feminina Evani Wolf

De Sant’Ana do Livramento, Eliane Marques é a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Açorianos (2016) na categoria poema.

Essa história começa entre o Brasil e o Uruguai, onde Eliane cresceu e começou a dar aulas particulares para amigos e colegas próximos, ainda na adolescência. Apesar de estar na considerada fronteira da paz, ainda na década de 1990 Sant’Ana do Livramento possuía vários clubes para pessoas brancas e um clube para pessoas negras. “Assim, embora pudéssemos atravessar a fronteira entre dois países, não podíamos transpor certas fronteiras dentro da mesma cidade, e nem eram necessários cartazes com o comando expresso da lei – “Proibida a entrada de negros” – a lei estava plenamente subjetivada (para nós e para eles) como lugar de espaços vedados (para nós)”, contou a poeta.

Eliane mora no bairro Rio Branco em Porto Alegre, conhecido como Colônia Africana até a década de 1950, quando ocorreu pequena diáspora de negros porto-alegrenses. A opção por esse espaço tem a ver com sua história, assim como cada escolha profissional feita em 46 anos de vida. “Dizem que sou séria demais, que sou braba, que assusto as pessoas. Geralmente ninguém se importa com o que digo, mas com como digo e como falo; dizem que falo em tom de voz alto, incisivo, faca na bota”. Nesse episódio da Fala Feminina compartilhamos passagens marcantes do caminho de Eliane Marques até a publicação do livro E se alguém o pano, que resultou num feito para a luta pela equidade de raça e gênero: o primeiro prêmio Açorianos conquistado por uma poeta negra.

Em Sant’Ana do Livramento ela também se formou em Pedagogia e concluiu o magistério, num período em que questão financeira pesava e Eliane pensava mais no sustento das despesas. Por conta disso, a afinidade com as letras só rendeu livros a partir de 2009 (obra O Relicário), anos após a vinda para a capital gaúcha, em 1998. Na infância, morava numa casinha de madeira, onde o único armário dividia o espaço em dois cômodos, como um muro: de um lado as crianças (Eliane, a irmã e o irmão) e do outro os adultos (pais). Apesar da composição desse lar, que também tinha um quintal em que ela e os irmãos brincavam, aquela não parecia ser uma casa de família. “Minha mãe, Maria Iolanda, na condição de empregada doméstica, trabalhou duro em “casas de família” do Brasil e do Uruguai. A expressão “casas de família” sempre me atormentou; ao ouvi-la eu tinha a impressão de que a “nossa casa” e a casa da “minha avó” não encaixavam nesse conceito. Para mim, apenas a casa dos outros, dos brancos, onde minha mãe trabalhava, podia ser considerada “casa de família”.

Nesse contexto, o gosto pela literatura nasceu tanto das histórias que a avó contava na infância quanto das obras de autores como Fernando Pessoa e Lima Barreto. “Minha avó folheava os livros das patroas. Quando chegava em casa, ela contava histórias aos netos em torno do fogão à lenha”, repassando, à sua maneira, lendas, fábulas e romances que impactaram Eliane. Já o avô era clarinetista e, pela arte da música, inspirou Eliane na arte da escrita, além de ter proporcionado episódios que também dariam bons livros. “Meu avô pescava Muçum com o dedo indicador e depois o fritava para dar aos netos, seus companheiros de pescaria”.

Do pai ela ganhou um livro do Fernando Pessoa e, da professora, ganhou a tarefa de escrever sobre Clara dos Anjos, personagem emblemática de Lima Barreto, e o resultado chamou a atenção da turma. Assim cresceu o vínculo não só com a literatura, mas também com os estudos. “Alguém que quer escrever não pode passar sem ler e discutir grandes poetas”, disse Eliane. A dedicação na escola, reconhecida pelos professores e colegas, não a blindou do preconceito. “Esses colegas, depois de mastigarem uma bala chamada ‘neguinha’, costumavam jogar o papel em mim, dentro da sala de aula, com o professor observando e permanecendo de braços cruzados (uma cena sexual, diria minha analista)”, contou Eliane.

A escritora Eliane Marques

Convivendo com a discriminação desde criança, persistiu como mulher negra, afirmando o lugar de fala que se calcificou depois de inseguranças e percalços desse caminho. “Um dia eu vinha num automóvel com meus colegas de trabalho e vi minha mãe apressada na rua, cheia de trouxas, e tive vergonha de dizer que aquela mulher negra, cheia de trouxas e andando apressada, vinda ou saída do trabalho, era minha mãe. Eu ainda hoje não consegui me livrar da culpa por ter sentido esse tipo de vergonha. Foi ela quem me deu o dinheiro para pagar um cursinho preparatório para a carreira de Técnico do Tesouro do Estado, meu primeiro ingresso no serviço público”.

Já na fase adulta, o primeiro cargo como funcionária pública acompanhou outras variadas vivências. Eliane foi aluna do curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Santa Maria, período em que também se dedicou à pesquisa científica, mas, a fim de seguir em cargos públicos, mudou-se para São Gabriel, formou-se em Direito nesse meio tempo e, buscando melhores oportunidades, transferiu-se para Porto Alegre, onde se preparou para a magistratura e estagiou no Tribunal de Justiça.

O estágio marcou outra guinada na trajetória da poeta: uma colega servidora notou a timidez de Eliane e a indicou a participar de encontros da Escola de Psicanálise e Poesia de Porto Alegre, para ganhar maior desenvoltura no atendimento ao público do TJ. Nessa instituição, que tem duas vertentes (a da psicanálise e a da poesia), ela ministra atualmente o seminário extensivo de psicanálise “O mal-estar na sociedade contemporânea”, junto de Lúcia Bins Ely, e coordena a Escola de Poesia, cuidando também da revista O Ovo da Ema. Eliane ainda concilia a carreira de escritora com o cargo de Auditora Pública Externa do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul, mantendo a rotina atribulada, mas que ela cumpre com prazer.

Nesse ofício de tarefas variadas, ela promove atividades de reflexão e estudo da poesia, não só a nacional, mas a internacional. A referência africana da poeta, que gosta muito dos autores nigerianos Chinua Achebe e Chimamanda Ngozi Adichie, está presente em suas obras como forma de resistência negra. O livro que a rendeu o prêmio Açorianos, E se alguém o pano, contém memórias das lavadeiras (incluindo a avó de Eliane) de Sant’Ana do Livramento, que tinham suas imagens restritas ao corpo e ao pano usado para o trabalho braçal das negras nas tais casas de famílias abastadas.

A escritora Eliane Marques

A obra, lançada em 2016, é inspirada no poema “Irene no Céu”, de Manuel Bandeira:

Irene no Céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

BANDEIRA, M. Estrela da Manhã, 1936.

O texto despertou inquietude em Eliane, que não gosta da personagem Irene, “(…)tão preta e boa e sempre de bom humor. Como poderia ter sido tão preta e tão boa?”, ela disse. Na obra de poemas E se alguém o pano Eliane imprimiu então a condição que fez parte da formação de sua identidade.

“Da dinastia das lavadeiras, advenho; da dinastia das cozinheiras, advenho; da dinastia das planchadeiras, advenho;
O destino que me guarda é o do ruído das espumas que passou com aquele arroio”.

MARQUES, E. E se alguém o pano, p. 97, 2016.

Outro projeto relacionado, dedicado ao poeta nigeriano e vencedor do prêmio Nobel de literatura – Wole Soyinka -, inclui um filme dirigido por Eliane, que será lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, em homenagem ao autor. Não para por aí. O próximo livro de poesia está saindo do forno e se chamará “O poço das Marianas”, em que a autora dirá o que não pôde dizer na obra anterior. Os poemas desse lançamento giram em torno das mulheres, que segundo ela “aceitam melhor sua incompletude e por isso se dedicam mais à superação”.

Tanta solidez e dedicação à atividade da mente também dão lugar à atividade do corpo por meio da corrida, um dos hobbies de Eliane. Da Redenção até o Gasômetro ela vai ouvindo música, possivelmente inspirando-se para o trabalho de trançar palavras que fogem da obviedade e de um suposto real, como ela mesmo diz, provocando os leitores a também primarem pela autenticidade na vida.

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2017-10-24T10:09:22+00:00 20/10/2017|Fala Feminina|