A Fala Feminina de Evani Wolff
#episodio7

Fala Feminina Evani Wolf

“Há 17 anos Evani era cliente da Fatto com a marca Tactile. Nos shoppings Iguatemi Porto Alegre e São Paulo, em parceria com a HStern, no Rio, no Mueller Shopping Center de Curitiba e na loja de Novo Hamburgo. Evani abalava com sua presença: vestia preto, cinza ou as cores da coleção, em peças talhadas na elegância. Jóias mínimas. Mas, o que mais me chamou a atenção foi o cabelo comprido, no meio das costas. E ela tinha 55 anos!

A curiosa aqui, que não se aguenta, largou a pergunta do porquê do cabelo longo. Resposta: só agora consegui ter o cabelo que queria na juventude! E resolvi me dar este capricho, porque é o momento que tenho condições de tê-lo.

Não é o máximo? Só uma corajosa faz isso! Aliás, coragem é o que não falta para essa geminiana que faz tudo, mas tuuuudo, no capricho! Evani é mil vezes facetada!!!”

Fátima Torri
“[…] Nós somos tais quais diamantes que têm várias faces.”(Svatava Vynal)

Em uma casa de chão batido coberta de capim, na pequena cidade de Mata, nasciam grandes sonhos. Evani crescia admirando as habilidades da mãe, Ema Maurer, com a costura, e contemplava os bailes da cidade. Sonhava que um dia seria ela quem usaria belos vestidos e passaria a noite dançando aquelas valsas, boleros e tangos com um rapaz moreno de fala meio castelhana, igual aos que via nos bailes que ela espiava ao lado da mãe, pela janelinha do Clube e que lhe dizia, vendo seu encantamento: ‘Filha, um dia tu vais dançar tango, que tu mais gostas, ali no salão.’ Nem imaginava que os caminhos até esse tão esperado momento seriam tão repletos de surpresas e reviravoltas.

Surpreendente talvez seja uma palavra insuficiente para descrever a história de Evani Wolff. Mulher forte, de trajetória admirável, tomou para si a tarefa de se reinventar como um exercício permanente. Ao longo dos anos, são muitas “Evanis”: mãe, esposa, filha, professora, empresária. A constante entre todas elas é a devoção, a força e a delicadeza em tudo o que faz.

A infância na Mata é lembrada com carinho e pesar. Aos 6 anos Evani perdeu o pai para o alcoolismo crônico e assistiu sua mãe, viúva aos 39 anos, se fortalecer para criar os três filhos sozinha. “Tinha carestia de tudo lá em casa. Menos de fé. Esta nunca faltava pra mãe”, conta em seu livro de memórias À luz da Lamparina. A admiração pela mãe é evidente. A inspiração para o título de sua obra veio da lembrança de observar a mãe, modista que costurava trajes para as mulheres da cidade, trabalhar nos tecidos à noite, iluminada por uma lamparina.

Aos 13 anos, mudou-se para Sapiranga. A juventude foi marcada por estranheza na nova terra, descobertas, e saudades da Mata. Evani se concentrou nos estudos e conseguiu uma bolsa como interna na Escola Normal em Taquara. Era o prenúncio dos primeiros passos que daria sozinha. E o início de uma carreira de 20 anos dedicados ao magistério. Formou-se em letras na UNISINOS e adquiriu o título de Mestre em Linguística pela PUCRS. Nesse período conheceu João Wolff, com quem se casaria e teria três filhos. A maternidade despertou em Evani, uma força ainda maior. Em 1970 nasce Daiene, a primeira filha do casal. “A mulher, no momento em que se faz mãe, só não supera o poder divino. Mas a ele se iguala” diz, descrevendo o que sentiu ao dar à luz. Seis anos depois nasce Patrícia e, em 1977, Felipe, o terceiro filho. “Por tudo que já tinha recebido até ali, eu não precisava de mais nada nessa vida”.

A decisão de entrar no mundo dos negócios foi um novo desafio. Evani deixa o magistério para trabalhar na empresa de João, no ramo coureiro-calçadista. Participou, primeiramente, da equipe de marketing do setor de vestuário em couro e se encantou com o processo de criação. Mais uma vez, a figura da mãe modista surge como impulso inconsciente em seu novo trabalho.

Depois de algum tempo lidando com couro, Evani conheceu todos os tipos de peles disponíveis no mercado. Mas uma em especial lhe chamou a atenção pela pouca espessura, maciez e caimento. Parecia um tecido. Estas peles provinham dos ovinos deslanados do Nordeste brasileiro que, com o passar do tempo perderam a lã para poderem suportar o clima quente. Com esta mutação genética houve também a modificação das peles que, antes imprestáveis, agora tornaram-se resistentes, mas delicadas. Evani percebeu o potencial da matéria-prima, a melhor do mundo para vestuário e criou sua própria empresa.

“[…] que se lançou no mundo da moda tonando-se pioneira na fabricação de roupas de um couro nobre e raro, genuinamente brasileiro.” (Costanza Pascolato. P. 6)
Surgiu, assim, a Tactile. De biquínis a casacos, calçados, bolsas e acessórios, tudo era feito deste couro especial. O sucesso foi tanto que, em 1999, iniciaram-se as exportações para a Europa. Isso rendeu à Evani o Prêmio Exportação ADVB/2000. A Tactile conquistou o público das mulheres maduras de classe alta, balançou o mercado e recebeu a consagração da imprensa e da crítica de moda no Brasil. Deu força à filha e sócia Daiene, para criar a marca Gutz, focando no público jovem. Juntas, Tactile e Gutz revolucionaram o cenário da moda em couro no país.

Mas tudo tem seu preço. E a nova empresária pagou caro pelo seu ideal. No calor do entusiasmo inicial pelo negócio, não se deu conta do quanto estava se desgastando. Em meio ano, tudo estava pronto: a fábrica, a coleção, a loja de NH, a do Iguatemi e a de Curitiba. Como consequência, estresse e um problema sério de saúde. Por orientação médica teve que fazer uma parada, refletir e reorganizar sua vida, priorizando os cuidados de si e colocando os negócios em segundo plano. Foi então que adotou um programa de saúde baseado no tripé: atividade física + alimentação adequada +cuidados com a mente. De 1992 até hoje, este é seu norte.

Mesmo assumindo a posição de empresária e empreendedora, Evani nunca abandonou o posto de filha dedicada. A paixão pela mãe inspirou cuidados e empenhos para que nada faltasse à Dona Ema. “Ema Maurer tem a força herdada da família imigrante, que veio da Comune de Chiarano, no Treviso italiano! Tem a beleza dos que forjaram na pedra e na terra, com as próprias mãos, o caráter e os valores humanos mais profundos, como a fé, o amor pelos outros e a coragem de quem quer ir sempre em frente.” As limitações que a mãe passara a ter com a idade serviam de motivação para mais zelo e carinho. Mas às vésperas dos 94 anos, a ‘Nona’ parte. No ano seguinte Evani perde sua irmã e no subsequente seu irmão. Isto é, estava sem família! Concomitante a isso, por questões de política de mercado, todos os negócios da família que envolviam couro, inclusive a Tactile, tiveram que fechar suas portas. Para culminar, chegava também a separação, depois de 43 anos de casamento.

Era uma sequência para sucumbir. Mas Evani se reinventa mais uma vez. Muda-se para Porto Alegre, sem perder o vínculo com a família em Sapiranga. Descobre uma Oficina Literária, inscreve-se num curso rápido de filosofia , procura uma escola de dança, vai aperfeiçoar-se em Buenos Aires.

Dois anos depois, Evani Wolff é a protagonista do que se chamou ‘O maior acontecimento cultural da história da Mata’ realizando a apresentação de tango com o professor argentino Daniel Osvaldo Carlos, moreno de fala castelhana com quem forma uma dupla apaixonada e apaixonante, dentro e fora dos palcos.

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2017-09-15T10:48:50+00:00 12/07/2017|Fala Feminina|